À Mesa | Armando Fernandes mete Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo nas bocas do mundo (c/vídeos)

Armando Fernandes ao centro, ladeado pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e da Confraria da Gastronomia do Ribatejo Foto: mediotejo.net

O gastrónomo Armando Fernandes apresentou no dia 1 de novembro, no âmbito da Feira Nacional de Gastronomia de Santarém, o livro em dois volumes “Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo”, uma primeira abordagem à culinária popular da região do Ribatejo. A edição, que contou com a colaboração de Helena Salvador, teve apoios comunitários por meio da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, tendo sido entrevistadas mais de 200 pessoas e congregado mais de 500 receitas. A obra foi a vencedora nacional da categoria “Countries – Regions – Local”, foi revelado esta semana, e é agora candidata ao título “The Best in the World” – “A Melhor no Mundo” -, num concurso promovido pelos Gourmand World Cookbook Awards.

PUB

O prémio obtido a nível nacional confere o direito à “Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo” de concorrer com os restantes vencedores de cada país para a conquista da distinção na mesma categoria, numa cerimónia que vai decorrer nos dias 20, 21 e 22 de março em Paris, França.

Em declarações ao mediotejo.net, na apresentação em Santarém, Armando Fernandes deu conta que “não se procuraram os sabores da burguesia ou da elite ribatejana, mas os do povo”, cuja a ausência de um registo escrito facilmente faria esquecer.

“Estamos a falar de uma cozinha oral”, frisou Armando Fernandes, aquela que ia passando de boa em boca, os usos e costumes das gentes sem grande instrução ou posses, que comiam a cobra que encontravam a rastejar no campo e sabiam por intuição que tal cozinhado não fazia bem ao estômago.

Uma carta gastronómica “das mulheres sábias” que cozinhavam “a olho”, sem dar grande importância a medidas ou até a ingredientes certos, sabendo conjugar e inventar consoante o número de pessoas à mesa e o que havia disponível na dispensa. “Uma cozinha de sacrifício, de sangue, suor e lágrimas”, salientou.

PUB

Gastrónomo Armando Fernandes apresenta em Santarém a Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 1 de novembro de 2018

“Temos relatos nesta carta gastronómica que só por si dão um livro”, comentou. O gastrónomo constatou ser esta uma “carta parcelar”, uma vez que cada um dos 11 concelhos da Lezíria do Tejo que a integraram dava por si um livro individual. Não havendo meios disponíveis, Armando Fernandes deixou o alerta de que se não houver registo muita coisa se irá perder.

“Não é uma carta de elites”, frisou, uma vez que desse tipo de gastronomia já há muito trabalho realizado. A “Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo”, em dois volumes, é um aglomerado de 557 receitas conseguidas por meio de centenas de entrevistas, visitando lares de idosos e perscrutando a memória popular. “O nosso património imaterial está representado nesta carta gastronómica”, afirmou, deixando novamente o apelo de que ainda muito há a pesquisar.

A edição teve apoios comunitários mediante a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e coordenação da Confraria Gastronómica do Ribatejo, para além de outro tipo de apoios de municípios, como o de Coruche que gravou em vídeo as entrevistas.

Apresentada no Festival de Gastronomia de Santarém, teve o aplauso do presidente do município local, Ricardo Gonçalves, que frisou a “conjugação de vontades” necessária à concretização da obra. Esta Carta “é muito genuína, porque é feita por pessoas genuínas já numa idade de sabedoria”, comentou.

Carta Gastronómica da Lezíria do Tejo. Ceia da Silva, Turismo Ribatejo Alentejo

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Já Pedro Couceiro, da Federação Portuguesa de Confrarias Gastronómicas, consideraria este um trabalho exemplar para as confrarias do resto do país. “Está aqui um exemplo do que as confrarias devem fazer”, comentando que muitas não zelam pelo seu património.

Da parte da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, Pedro Ribeiro elogiou o esforço e a preservação da memória, deixando o desafio para novas edições, mais completas.

A encerrar a sessão interveio Ceia da Silva, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, que lembrou em poucas palavras que a ideia inicial era fazer uma Carta Gastronómica do Ribatejo, tendo para isso sido assinado um protocolo com o Turismo do Centro, que integra o Médio Tejo. Conforme explicou, a Carta deveria incluir municípios como Mação, Abrantes ou Sardoal.

Mas “não podíamos esperar” e o Turismo do Alentejo preferiu cumprir os prazos delineados no protocolo.

“Este documento é um documento fabuloso”, afirmou. “Não está completo, haverá coisas a retificar, mas isto é uma memória viva da região”, que, tendo em conta a idade dos entrevistados, poderia não ser possível de concretizar dentro de uma década.

“Isto é um tratado da memória coletiva desta região”, refletiu, que poderá ser utilizado em estudos de mestrado e doutoramento.

O livro, avançou, vai ser enviado agora aos restaurantes da Lezíria do Tejo numa lógica de contribuir de “melhorar os menus” com estes contributos agora documentados por Armando Fernandes.

Francisco Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu “À Mesa em Mação”, editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica (“Prix de la Littérature Gastronomique”), atribuído em Paris. Escreve no médiotejo.net todas as semanas.

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here