“A locomóvel e o que nos custava o pão”, por António Matias Coelho

Locomóvel exposta junto à estrada na Carregueira (Chamusca) Foto: António Matias Coelho

No pão que chega à nossa mesa já não vem a lembrança do silvo da locomóvel, nem do esforço dos homens nas eiras, de forcado em punho, alimentando a debulhadora de feixes de cereal, por entre nuvens de moinha e ao rigor do sol do estio.

PUB

Esse foi um tempo que passou. Mais de meio século depois de ter deixado de ser útil, a locomóvel, substituída por mecanismos mais modernos, assume-se como símbolo de uma época em que as máquinas chegaram à agricultura e como homenagem ao trabalho que tem a gente para arrancar da terra o pão de que precisa para viver.

Uma locomóvel, como o nome deixa entender, é um objeto que pode ser movido de um local para outro. Trata-se, em termos simples, de uma máquina geradora de força motriz, trabalhando a vapor, que serve para, através de um sistema de correias, pôr outras máquinas a funcionar. Utilizada em diversos trabalhos agrícolas, foi especialmente empregue para tocar debulhadoras e enfardadeiras. E é a imagem da eira, povoada de cabulas e de um formigueiro de gente, num corrupio interminável, que mais nos faz acudir à memória.

Antes da revolução agrícola e da revolução industrial, todos os trabalhos do campo eram realizados a braços ou com o recurso a animais. A debulha era um deles, trilhando ou malhando com mangual. A introdução de máquinas na agricultura, visando a rentabilização do trabalho com vista à obtenção de maiores lucros, veio acelerar a realização das tarefas e reduzir bastante os custos – embora não o esforço dos homens, das mulheres e dos rapazes envolvidos na roda-viva da eira, cujo ritmo de trabalho era, rigorosamente, comandado pelas máquinas e, à testa de todas elas, pela incansável locomóvel.

Funcionando a lenha para produzir vapor que fazia funcionar a sua roda grande, a locomóvel ocupava um homem, o fogueiro, que nunca tinha parança nem podia abrandar de a alimentar de sobro ou de oliveira.

PUB

Na debulhadora trabalhavam outros dois assalariados, a uma velocidade alucinante, um levantando os molhos de pão nos dentes de um forcado e outro, postado em cima, para os enfiar na boca insaciável da máquina.

De duas em duas horas, às vezes a cada hora, eram rendidos os homens, esgotados de tanto esforço e incapazes de prosseguir ao ritmo dos mecanismos, mais um feixe, outro e outro, sem uma falha nem tempo para limpar o suor.

Na enfardadeira eram três, no mínimo, os trabalhadores que serviam a máquina, ao ritmo que ela impunha: um a alimentá-la, introduzindo a palha que provinha da debulha, outro a meter arame, quase sempre um rapazito, que esse era trabalho leve e pagava-se barato, e um terceiro a atar. E por ali, num ir e vir sem ter fim, mais umas quantas pessoas, seis ou sete, às vezes mais, sobretudo mulheres e garotos, acartando os molhos das cabulas para junto da debulhadora. Atento, o capataz, assegurando-se de que o passo do trabalho ia certo, ao ritmo do eterno rodar das correias da locomóvel[i].

Chegando ao fim o trabalho, ficava vazia a eira, assim permanecendo até ao verão seguinte, quando nova ceifa viesse e obrigasse ao seu arranjo, regando, calcando e varrendo para usar como sendo nova. Para o celeiro seguia o grão, medido e ensacado, às ordens do feitor que, em nome do patrão, o haveria de mandar fazer em farinha ou simplesmente vender. E a locomóvel partiria, dali para outra eira, levando com ela os homens, as mulheres e os garotos para juntarem mais grão e mais fardos de palha numa outra eira por ali. E depois outra e outra, haveria de passar por elas todas, levada por juntas de bois ou parelhas de mulas, ou por tratores mais perto de nós. Era móvel a locomóvel, não esqueçamos.

Memória do trabalho da locomóvel na eira em painel de azulejos de um abrigo de autocarro – Carregueira (Chamusca) . Foto: Foto Romão

A que está exposta à entrada da Carregueira, perto de um abrigo de autocarro que tem um painel de azulejos em sua memória, veio de Inglaterra que é donde costumavam vir quase todas as invenções, falando de maquinaria. Foi patenteada pela casa Robey & Cº Limited, da cidade de Lincoln, no centro leste do país, em 1938. Conheceu bem as eiras da nossa terra, porque andou nelas muitos anos. Depois passou de moda, foi destronada pelas ceifeiras debulhadoras modernas, mais rentáveis e, de facto, muito mais móveis… Até que os herdeiros de Pedro Vaz Gomes, a cuja casa agrícola pertenceu, decidiram oferecê-la à Junta de Freguesia da Carregueira[ii].

Agora já não se move a locomóvel. Está ali, à beira da estrada e aos olhos de quem passa, em homenagem ao trabalho agrícola da freguesia da Carregueira desde 2001[iii]. E ali ficará. Sem correias, nem gente numa azáfama em torno dela, nem capataz de olho atento, nem moinha a dificultar-nos a respiração. Mas com a dignidade dos grandes símbolos que nos evocam os tempos atrás de nós. Para que se saiba, e não se esqueça, o que nos custava o pão[iv].

[i] Sobre as tarefas tradicionais da eira, veja-se o nosso trabalho Cadernos da Ascensão: A Terra, Câmara Municipal da Chamusca, Chamusca: 1996, p. 17-18 e o de João Carrinho Arripiado, Aldeia do Tejo, Câmara Municipal da Chamusca, Chamusca: 2003, p. 85-87.

[ii] Existe uma outra locomóvel em pública exposição no concelho da Chamusca, na Zona de Atividades Económicas. Foi oferecida pela família Vasconcellos Melo.

[iii] Na ocasião em que foi colocada como monumento, em 2001, a Junta de Freguesia da Carregueira publicou um desdobrável sobre a locomóvel com texto da Dr.ª Ana Paula Pinhão Ribeiro.

[iv] Este texto, ao qual se introduziram agora ligeiras alterações, integrou originalmente o livro do autor Os Abrigos da Memória, publicado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012.

 

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here