“A lenda do sável”, Armando Fernandes

Foto: DR

Uma lenda índia conta a chorosa conversa respeitosa de um sável com o deus Manitú: o peixe contou-lhe o quanto sofria por parte de outros peixes dada a sua feia aparência dado a pele estar pontuada por milhares de espinhas originando troças e risos de escárnio quando se cruzava com outras espécies piscícolas. A divindade pacientemente ouviu o Alosa Alosa, num ápice retirou-lhe o desgosto virando-lhe as espinhas para dentro do corpo ficando o dorso a relampejar mesmo nos dias cinzentos e chuvosos.

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O sável foi sustento de muitos pescadores no Ribatejo, as malfeitorias contra o rio levou à diminuição da espécie, no entanto, vai aparecendo numa disputa com exemplares pescados no rio Zêzere, às vezes vindo do Mondego e do Guadiana. Nos dias de agora é alimento disputado no nicho da classe média, os anais dizem-nos quão merecimento tinha junto das comunidades de menores recursos, sendo tratado culináriamente através de várias formas.

Se a cabeça origina substanciosas sopas, as ovas também ajudam a conceder sapidez às mesmas para lá de entrarem em açordas, migas, empadões, pastelões e acompanhamentos diversos. As ovas cozidas agradam a muitos gourmets servidas ao natural, temperadas com azeite e vinagre tendo como acompanhamento legumes de várias espécies. O leitor experimente manducar ovas assim temperadas mais uns pós de pimenta assessoradas por fatias de pão e vinho, neste caso branco.

È excelente assado no forno inteiro ou cortado às postas grossas, na grelha as postas também ganham se forem nédias. No tocante a acompanhamentos é de acordo com os desejos de cada qual, pessoalmente prefiro molho verde e salada de agrião.

De uma forma geral a maioria das cozinheiras e cozinheiros frita o sável após ter sido finamente fatiado. Atenção à fritura pois a sua carne é muito delicada e a espessura das postas leva a que um descuido estrague a confecção.

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A época aí está, as enunciações acima formuladas não passam disso mesmo, as leitoras e os leitores podem apreciar o protegido do omnipotente Manitú assando-o ao sal, cozendo-o no vapor ou se tiver engenho para isso conseguir agradável carpaccio.

A arte de cozinhar é uma arte nunca fechada, sempre aberta a toda a casta de inovações, o problema reside no bom engenho a redundar em ampla satisfação palatal.

Vale de Lobos

O sável objecto da crónica esteve a marinar de um dia para o outro, foi frito e teve no branco Vale de Lobos, colheita de 2017 digno e tentador acompanhante. Fruto da estimada e conhecida casta Fernão Pires, de cor citrina num amarelo pálido, opulento nas emanações a fruta, este branco revelou-se bem estruturado, elegante, fresco e guloso. Mais um vinho da chancela TEJO a provocar boas emoções e a projectar os vinhos ribatejanos.

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