“A importância da mudança”, por João Morgado

Lucas Pires. Foto: DR

Existem dois homens que admiro bastante, sobretudo pela sua humildade e porque souberam reconhecer o momento certo para mudar. Ambos infelizmente já faleceram, mas deixaram um legado pelo qual me vou pautando. Um deles creio que ainda muito pouco sobre si escrevi, trata-se do meu avô Joaquim Morgado, pessoa que marcou bastante a minha formação e me ofereceu involuntariamente muito daquilo que sou hoje. Por coincidência ele admirava bastante o homem de quem falarei a seguir, o nosso parente, segundo dizia, Francisco Lucas Pires.

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O meu avô era um homem muito sério e que usava todos os dias uma camisa, ora lisa, ora às riscas, ora aos quadrados, ora de manga curta ou comprida, conforme mandava a estação do ano. Falo das camisas apenas por curiosidade porque na verdade queria contar-vos que ele não gostava nada de mandar as coisas fora, tudo aquilo que tinha era sempre reaproveitado e só ia para o lixo quando realmente não mais servia. Falo sobre o seu modo de viver à antiga para constatar o quão curioso é ver como mudamos de uma sociedade de poupança e contenção para uma sociedade de consumo exacerbado prejudicando o meio que nos rodeia. Falamos de redução e contenção nos gastos. A resposta é simples e basta ver como fazíamos antigamente. A mudança é precisa e, neste caso, urgente.

Francisco Lucas Pires foi um homem que infelizmente não tive a oportunidade de conhecer e ver como desempenhava os cargos que ocupava, no entanto permanece o seu legado para que o possa admirar, como homem que defendia acima de tudo os seus valores e princípios. Vejo-o como exemplo quando estou a defender uma ideia e todos pensam diferente de mim. Lucas Pires foi presidente do CDS-PP, admirado em Portugal e lá fora, da esquerda à Direita, e um ávido defensor do Projeto Europeu. Quando o seu partido mudou de liderança e se tornou eurocético, o que durou ainda tempo, Lucas Pires não teve outra opção senão abandonar o barco e permanecer fiel ao seu desejo por um Portugal na União Europeia no PPD/PSD.

O meu avô sabia ver quando uma camisa já estava velha e não lhe tinha mais utilidade, tal como Lucas Pires não viu no CDS continuidade para as suas ideias. Ambos souberam inovar e mudar a tempo, um de camisa e outro de partido.

De facto, os partidos podem ser como as camisas, têm um tempo de vida (no poder), depois deixam de servir para essa função, mas podem servir para outra (oposição). Um camisa para durar mais de vinte anos tem de ser uma camisa muito boa, mas não aguenta sem ter um buraco, os colarinhos gastos, uma nódoa aqui ou acolá. Podemos fazer os remendos todos possíveis e imaginários, mas nunca mais será a camisa do início.

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É preciso reconhecermos o tempo de vida útil dos bens que temos e saber inovar e dar-lhes outra vida, tal como aos partidos, dar oportunidade à camisa que fica sempre no armário que se calhar até nos vai agradar e surpreender bastante. É urgente a mudança. Sobretudo nos mais velhos que pouco gostam de mudar.

 

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