“A geração dos anos 80/90”, por Vânia Grácio

Ah! nos anos 80/90 é que era bom! Brincávamos na rua até tarde, esfolávamos o joelho e sabíamos que a hora de ir para casa era quando a mãe vinha à porta para nos chamar. Se não íamos logo, o ouvirmos chamar-nos com o segundo nome no final da frase, era sinal de “trovoada”. Sabíamos para que servia uma caneta BIC e uma cassete, só tínhamos 4 canais de televisão e se deixávamos passar a hora dos desenhos animados, já não havia hipótese. Não havia comando na TV.

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Tínhamos duas ou três cassetes VHS que trocávamos com os amigos e que víamos até gastar a fita. Íamos sozinhos para a escola e ficávamos sozinhos em casa. Comíamos Cerelac ao pequeno almoço até lamber os beiços e o leite do dia vinha em pacotes moles. Íamos sozinhos à mercearia da esquina comprar o pacote de açúcar que faltava em casa, com o tostão contado para nada falhar. Sabíamos o nome dos vizinhos e vivíamos momentos de adrenalina ao tocar às campainhas e fugir.

Hoje acusamos os miúdos da nova geração de não aproveitarem nada da vida e de desconhecerem muitas coisas, ah… porque no nosso tempo é que era bom. Mas pensemos, quantos de nós deixam os miúdos brincar na rua, como nós fazíamos. Eles não sabem o que é uma cassete e para que servia a caneta BIC porque nós não lhe explicámos e porque eles já são da geração do CD ou do mp3, hoje temos 200 canais de televisão e até já há aplicações no telemóvel para mudar de canal.

Não comem Cerelac porque o excesso de açucar faz mal e por isso temos “paranóias” com a alimentação que damos aos nossos filhos. Tudo tem de ser pesado e medido para ser nas quantidades certas. Não os deixamos ficar em casa sozinhos e muito menos virem da escola sem um adulto. Vamos buscá-los de carro à porta da escola, só porque não podemos ir à sala de aulas, para não andarem 30 passos.

Enchemo-los de atividades e de “aprendizagens” que os impedem de correr na rua e esfolar os joelhos. Já quase não há a mercearia do bairro porque os hipermercados até já fazem entregas em casa. Mal conhecemos os nossos vizinhos e tocar à campainha já deixou de ter graça. Agora entregamos-lhe um tablet para que nos deixem almoçar ou jantar descansados. Mas e que fazemos nós?

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Nós que somos a geração fantástica, passamos o tempo com o telemóvel na mão, temos vidas sedentárias, saímos do trabalho a correr e cheios de stress. E os pais da geração fantástica? Também trabalhavam e corriam para casa com afazeres que hoje nós não temos. Já poucos terão hortas para cultivar depois da jornada de trabalho ou animais para dar comida. Mas temos de ir ao ginásio, ao cabeleireiro e outros afins. Então porque criticamos aquilo que os nossos filhos “não fazem” se somos nós que os estamos a educar assim?

Se antes o mesmo triciclo passava de primos para primos, porque é que hoje cada um tem três triciclos em casa? Somos a geração que aproveitou mas que não está a saber passar os valores corretos. Não vejo mal em darmos o tablet às crianças se isso significar um pouco de sossego e também porque é um facto que é um objecto da atualidade. Temos de aprender a viver com as novas tecnologias, a usufruir delas, não há volta a dar. Elas estão aí, tal como os valores que os nossos pais nos passaram estão aqui. Só temos de os colocar em prática. Ser menos stressados e dar responsabilidades aos miúdos que eles sejam capazes de gerir. Deixá-los crescer com a nossa supervisão.

Têm de esfolar o joelho e de saber manusear o smartphone. Havendo equilíbrio, aquilo que temos é a evolução dos tempos. Também a geração fantástica teve coisas que a geração dos nossos pais e avós não teve, ou não será verdade?

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Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos. Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos. Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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