À Descoberta | Rota de mala às costas pelo trilho do IC9

Foto: Pexels

Durante o mês de agosto, os nossos jornalistas partilham as suas recomendações de passeios pela região. Por uma tarde, por um fim de semana ou por mais dias, queremos que conheça um recanto de paz para um piquenique, um esconderijo de água cristalina para mergulhar, um mundo de aventuras para maravilhar os mais novos… Para quem é de fora ou para quem é de cá, sugerimos uma mão cheia de coisas boas que é pecado não aproveitar.

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O seu facebook está cheio de fotografias de amigos a viajar pelas praias e monumentos históricos da Tailândia e do Cambodja, os picos míticos do Nepal e do Butão, as deslumbrantes cidades europeias, de Paris a Moscovo, ou dos resorts paradisíacos das Seychelles, Maldivas e Zanzibar e você não tem dinheiro sequer para ir até à low cost Costa Vicentina. Não desespere, nem se acanhe, que o Médio Tejo tem zonas de paisagens idílicas de fazer chorar de inveja quem passeia pelo deserto de Wadi Rum ou ande perdido pela selva amazónica. Vá buscar as sapatilhas, faça a mochila e uns snacks e selecione a sua banda sonora. Prometemos aventura sem pacote turístico e um Portugal que talvez não saiba que exista.  

Há aquele livro do Gonçalo Cadilhe que tem há tempos em cima da cabeceira que o faz sentir-se um acomodado. Mas viagens por paisagens intermináveis e povos exóticos não estão assim tão longe de si. De Tomar à Nazaré, seguindo a rota do IC9, há um mundo natural que merece ser descoberto, compondo a história cultural e patrimonial da região e a sua ligação aos rebanhos, à serra, à lezíria e ao Tejo.

Há aldeias escondidas que parecem saídas do País das Maravilhas e encontros inesperados com todo o tipo de personagens. Há rios de um profundo azul que apelam a banhos descomprometidos com a natureza e lendas como só a tradição portuguesa conseguiu criar. Há desporto, história, música, literatura, vida animal e o que mais se propuser a descobrir.

Propomos um fim de semana de três dias de mala às costas, com ou sem crianças, pelo trilho do IC9, concretamente entre Ferreira do Zêzere e Porto de Mós. Ponto central: Fátima, para dormidas a preços acessíveis e pequeno-almoço assegurado. O resto são snacks, água e fruta, com o equilíbrio adequado entre peso e sustento. Nas caminhadas propomos percursos circulares para não depender de transporte de terceiros. Se levar crianças, deixamos algumas alternativas.

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E é partir à aventura…

                      Dia 1

Manhã

Chegou a Tomar, cidade templária que marca o quilómetro 0 do IC9, e faz um desvio para o concelho de Ferreira do Zêzere, concretamente até à península ribeirinha de Dornes. Tem aqui início o primeiro desafio do fim de semana: o percurso pedestre local, identificado como “PR1 FZZ”. O trajeto é circular e há várias placas a dar conta da sua existência, cruzando-se com a Grande Rota do Zêzere. Por forma a apreciar um pouco a aldeia e o património monumental que oferece, propomos que comece no ponto junto à Torre Pentagonal, mesmo ao lado do cemitério.

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Em alguns pontos do trajeto é possível aceder ao rio. Frisamos que não são pontos vigiados, está por sua conta. Imagem de abril de 2017 Foto: mediotejo.net
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Paisagem de Dornes a partir de um dos pontos do percurso pedestre. Imagem de abril de 2017 Foto: mediotejo.net

O circuito tem cerca de 19 quilómetros e uma estimativa média de cinco horas, pelo que, para aproveitar o dia, sugerimos que comece cedo e leve lanches e respetivo almoço. Não esqueça o fato de banho. Para além da paisagem, há alguns pontos mais acessíveis em que é possível dar um salto ao rio. Mas atenção! Não vai encontrar praias fluviais e vigiadas, está por sua conta. O trajeto é feito por caminhos de terra batida pelo interior da serra, com todas as pequenas surpresas que tem para oferecer, sempre com o rio Zêzere como companheiro.

Caso leve crianças o trajeto será demasiado longo, pelo que propomos não mais que alguns quilómetros em redor da aldeia e o respetivo regresso à Torre Pentagonal. Reservando com antecedência nos restaurantes locais, pode aproveitar para ir experimentar o lagostim local, uma praga do rio Zêzere convertida em iguaria e petisco, a preços bastantes acessíveis e pescado pela madrugada. Ou então desloque-se até ao Lago Azul, à praia fluvial da Castanheira, e faça a sua primeira experiência de wakeboard no cable park, uma das atuais apostas de dinamização da barragem de Castelo de Bode.

A paisagem teve os seus revezes nos últimos anos, mas ainda preserva muito do sue impacto natural. Descontraia e aproveite a praia fluvial.

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Foto: D.R.

Tarde

Se a primeira parte do dia ainda não lhe retirou a energia, siga agora até Tomar. Alguns pontos do concelho fora da rota turística típica podem ser do seu interesse. Uma paragem na barragem de Castelo de Bode ou no Aqueduto dos Pegões levam-no a perceber a importância de monumentos como o Convento de Cristo e do património natural do rio Zêzere para a economia da região ao longo dos séculos.

Antes de fazer o check-in em Fátima, propomos uma passagem pela freguesia de Seiça, no concelho de Ourém. Perca-se pelos caminhos da freguesia e descubra as diversas quintas brasonadas que ainda resistem na localidade, nomeadamente as quintas de Seiça, da Alcaidaria-Mor, da Mota, da Olaia e a Quinta da Sorieira. Os espaços, apesar da beleza arquitetónica e de várias histórias e lendas associadas, são propriedade privada, pelo que o acesso é condicionado.

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Quinta da Alcaidaria Mor, na freguesia de Seiça Foto: Quinta da Alcaidaria Mor

Dia 2

Manhã

Coloque os auriculares nos ouvidos e saia para a rua, há um novo dia a ser vivido. Tome um bom pequeno-almoço, reabasteça o mala e siga em direção em Bairro, no limite entre o concelho de Ourém e o de Torres Novas. Aproveite a manhã para conhecer o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurio da Serra de Aire. O percurso de interpretação ainda ocupa cerca de uma hora e possui algumas irregularidades no terreno, mas reveste de uma componente natural e didática que une adultos e crianças.

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“Parque Jurássico” nacional não morreu e parece ter algum impacto junto dos turistas estrangeiros. Foto: mediotejo.net

Depois desça a Serra de Aire e dirija-se ao concelho torrejano. A reserva natural  do Paúl do Boquilobo tem um percurso pedestre digno de visita, que ocupa cerca de duas horas e não oferece particular dificuldade. Aqui é possível observar e fotografar – os amantes da fotografia têm muito por onde se perder – uma fauna e flora extraordinariamente ricas, com a existência de pontos de vigia e de um centro de interpretação.

O passeio pode concretizar um momento didático para quem levar crianças. Saliente-se que esta é uma reserva da biosfera da UNESCO, sendo por tal área protegida.

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Ponto de Vigía do Paúl do Boquilobo nos inícios de março de 2016. foto mediotejo.net.

Pelo almoço, faça uma paragem na pitoresca aldeia do Boquilobo, terra natal de Humberto Delgado e onde existe uma casa-museu dedicada ao General Sem Medo. Mesmo que o espaço não se encontre aberto (deverá contactar o Museu Agrícola de Riachos), a aldeia vale por si, um característico retrato do Portugal ribatejano.

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Casa Museu Humberto Delgado situa-se na aldeia do Boquilobo. Foto: mediotejo.net

Tarde

Depois de dois dias exigentes de caminhadas e visitas, sugerimos um regresso ao concelho de Ourém, para um final de tarde no Park do Rato, na localidade de Matas. Trata-se de um parque de merendas com piscina, bem equipado ao nível de estruturas de apoio e com parque infantil, no interior do pinhal e algo escondido na serra. O espaço, de entrada gratuita, é propriedade privada, mas aberto ao usufruto da população. Não tem por tal nadador salvador, havendo apenas bem sinalizados os contactos em caso de emergência.

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Park do Rato. Relvado permite estender a toalha Foto: mediotejo.net

Estenda a toalha e usufrua uma tarde sossegada na mata, saboreando o resto do lanche que preparou para a viagem. Caso ande à procura de leitura, deixamos algumas sugestões que podem abrir o apetite para novas aventuras: Mulheres Viajantes, de Sónia Serrano; Furriel não é Nome de Pai, de Catarina Gomes; O Ministério da Felicidade Suprema, de Arundhati Roy; Na Massa do Sangue, de Evelina Gaspar; Singularidades de uma mulher de 40, de Elsa Ribeiro Gonçalves.

Não deixe de visitar Fátima sem dar um salto ao Santuário da Ortiga, na mesma freguesia, a alguns quilómetros da cidade. Conheça a história de um milagre do século XVIII a uma pastorinha muda que ainda motiva peregrinações.

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Santuário de Nossa Senhora da Ortiga Foto: Luz Houses

Caso não queira dar o dia já por terminado, passe pela vila medieval de Ourém e beba uma ginginha num dos cafés junto à Igreja Matriz. Ou então visite a Ucharia do Conde e usufrua de um jantar medieval (carece de marcação prévia), regressando por breves horas aos tempos de capa e espada, quando donzelas viviam presas nas torres dos Castelos e soldados-santos morriam a lutar pela fundação da pátria.

Dia 3

Manhã 

A poucos quilómetros de Fátima, na freguesia de São Mamede (Batalha – Leiria), arranca a última caminhada do fim de semana, um percurso circular de sensivelmente sete quilómetros. Intitulado “PR3 – Rota dos Moinhos”, o trajeto começa junto à antiga escola de Crespos, bem próximo da entrada da aldeia recuperada da Pia do Urso, e atravessa serra, campo e aldeias até ao Ecoparque sensorial da Pia do Urso, um circuito pensando para invisuais.

Todo o caminho é marcado por vários moinhos, alguns deles ainda em funcionamento, tais como o “Moinho do Cassaca”, os “Moinhos do Zé Cuco”, o “Moinho do Manuel Moleiro”, o “Moinho do Mocho” e o “Moinho do Castelinho”, entre outros. Ao longo da marcha é utilizado o mesmo caminho percorrido pelos romeiros do século XVI quando assistiam às festividades do Bodo ou às Festas do Espírito Santo, que se realizavam na serra, no primeiro domingo de maio. No percurso podem ainda avistar-se as pias naturais, sulcos multiformes escavados nas rochas pela erosão.

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Aldeia de Pia do Urso Fotto: Junta de São Mamede

Quando terminar o trajeto, aproveite para visitar a própria aldeia. As velhas casas serranas foram recuperadas, mantendo o lugar um estilo uniforme e característico, potenciado pelo comércio local.

Caso seja um interessado em espeleologia, passe ainda pelas Grutas da Moeda, situadas nas proximidades, um espaço descoberto em 1971 e de grande beleza natural. Com uma extensão visitável de 350 metros atingindo-se, durante a visita, uma profundidade de 45 metros, com uma temperatura média de 18ºC no interior da gruta, as visitas guiadas têm a duração de cerca 25 minutos.

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Grutas da Moeda de São Mamede, Batalha, a poucos quilómetros de Fátima. Foto: D.R.

Tarde

Antes de regressar ao IC9 faça uma paragem no parque de merendas de Loureira, na freguesia de Santa Catarina da Serra (Leiria), a cerca de um quilómetro de Fátima, e recupere as forças com um piquenique. Caso prefira um restaurante, a cidade de Fátima tem uma grande variedade de oferta, de comida rápida a tradicional, bastando procurar o espaço que mais lhe convier.

Propomos que o fim de semana termine já no concelho de Porto de Mós, no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. A exposição é acompanhada por um filme que explica todo o processo e estratégia militar que conduziram à famosa vitória.

Se é habitante do Médio Tejo, vai aperceber-se que o percurso das tropas lusas até ao descampado de São Jorge se fez pela região, começando com um conselho militar em Abrantes, um encontro posterior em Tomar, cruzando território ouriense até chegar ao atual distrito de Leiria. D. Nuno Álvares Pereira, o santo condestável nascido na Sertã, receberia o título de Conde de Ourém, entre outras honrarias.

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Estátua de D.Nuno Álvares Pereira junto ao Castelo de Ourém Foto: Google Images

Se decidir a partir deste ponto visitar ainda Alcanena, vai atravessar o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. O relevo acidentado de curvas e contracurvas, recheado de pedra, silvados e mato raso, nem sempre é fácil, mas vale a pena a viagem, assim como as paisagens extensas e a perder de vista, só possíveis de apreciar a partir dos seus picos, em Alcaria ou Serro Ventoso, sem esquecer a Fórnea.

Siga então até à praia fluvial dos Olhos de Água e beba um refresco junto à nascente do Alviela. O Centro de Ciência Viva por vezes organiza passeios para ver/ouvir morcegos. Aguarde então pelo pôr-do-sol e aprecie este momento final de silêncio, escutando os mistérios que a natureza ainda lhe vai querer segredar.

 “…Porque, no final, não vai lembrar-se do tempo que passou a trabalhar no escritório ou a cortar a relva. Escale aquela maldita montanha”

Jack Kerouac

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