À Descoberta | De Fátima até Belmonte está a nascer uma nova rota turística

Uma visita a Fátima, no concelho de Ourém, faz-se tradicionalmente para Oeste. Com exceção do Convento de Cristo, em Tomar, o turista geralmente segue o percurso que conduz ao Mosteiro da Batalha, à praia da Nazaré, à vila de Óbidos ou ao Mosteiro de Alcobaça. Mas a tendência está a mudar. Uma aposta nacional, e do Turismo do Centro em particular, na promoção do turismo religioso de raiz judaica, abriu a porta ao desenvolvimento de uma rota que poderá servir de alavanca ao Interior. A descoberta faz-se seguindo o curso do rio Zêzere, e neste percurso cabe um pouco de tudo: santuários, sinagogas, caminhos de contemplação e História. 

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Fátima, Belmonte, o Zêzere e os caminhos de Santiago: marcas de uma nova rota turística. Fotos: mediotejo.net

O pontapé de saída foi dado em fevereiro de 2018, quando o Workshop Internacional de Turismo Religioso, uma iniciativa original da ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima para promover Fátima, se deslocalizou para a Guarda, incluindo um debate sobre o potencial do turismo judaico.

Num seminário dedicado à “Globalização e Turismo Religioso”, Isaac Assor, da agência Alegretur, deu voz a este setor que começa a ver com interesse rotas nem sempre religiosas, mas históricas e culturais. “Os grupos judaicos não viajam para vir rezar”, afirmou. Os judeus, como povo que desde sempre se caracterizou pela forma como se espalhou pelo mundo, têm “interesse em conhecer as raízes”. Neste sentido, não é tanto um turismo de características religiosas, mas históricas.

Em declarações ao mediotejo.net, o responsável salientou que o potencial da rede judaica “é muito grande” e “não tem sido corretamente explorado”.

Existe “algum património” no país que pode integrar uma rota, como Tomar, Castelo de Vide ou Lisboa. Mas, considera, “muitas vezes a histórica basta, se for bem contada”. Muito do património judaico desapareceu mas existem pequenos registos um pouco por todo o país.

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Numa viagem deste tipo teriam interesse cidadãos de países como Israel, EUA, Canadá ou Brasil, que possui a maior comunidade judaica da América latina. “Temos bastantes contactos de pessoas que procuram este roteiro, vindo à procura das suas raízes.”

A Sinagoga de Tomar foi recentemente requalificada e encontra-se mais voltada para o culto. Foto: mediotejo.net

“Tomar, em termos de herança judaica é um dos locais mais emblemáticos”, frisou. “É um dos poucos locais que tem essa presença física (que resistiu), desde antes da Inquisição”, constatou. “Um roteiro sobre a herança judaica em Portugal tem que ter sempre Tomar.”

O Workshop decorreu em Fátima e na Guarda, tendo incluído neste último concelho uma visita à judiaria de Trancoso. Na página do Turismo do Centro existe atualmente espaço dedicado ao património judaico na região, traçando uma rota que passa por Belmonte, Guarda, Covilhã, Manteigas, Trancoso e Almeida, sem esquecer Tomar.

Neste contexto, o destaque vai para a vila histórica de Belmonte, no distrito de Castelo Branco. Desde 2005 que tem o único Museu Judaico de Portugal, “sendo uma das maiores referências no que toca ao património judaico, pois foi onde uma comunidade judaica se manteve organizada como originalmente, sem comparação com outro ponto da Península Ibérica”, refere a página do Turismo do Centro.

Com cerca de meia centena de judeus, a comunidade de Belmonte só se oficializou nos anos 80, depois de séculos de um culto oprimido.

Museu Judaico de Belmonte é único no país Foto: mediotejo.net

Belmonte, por outro lado, possui ainda um museu dedicado ao rio Zêzere, encontra-se na rota dos caminhos de Santiago e é a sede do grupo “Aldeias Históricas de Portugal”, detendo um característico património religioso católico relativo às fundações da nacionalidade, e uma ligação forte aos Descobrimentos, por ser o berço de Pedro Álvares Cabral.

De Fátima até à Serra da Estrela, fizemos uma rota que possui intrinsecamente uma carga espiritual que se encontra a ser atualmente explorada pelas entidades nacionais. Quer do ponto de vista religioso quer histórico – duas vertentes que frequentemente se cruzam -, explorar a herança judaica portuguesa é abrir o país à descoberta do seu interior.

Seguindo o trilho do rio Zêzere

O Zêzere nasce na Serra da Estrela, no Cântaro Magro, a cerca de 1900 metros de altitude. Vai descendo, atravessa o Vale Glaciar do Zêzere, Manteigas (Guarda), passa Belmonte e entra pelo Médio Tejo no concelho da Sertã. Segue depois por Ferreira do Zêzere e encontra-se com o rio Tejo em Constância, onde termina.

No seu curso há três barragens: Bouçã, Cabril e Castelo de Bode, encontrando-se a última nos limites geográficos de Tomar e Abrantes. No interior do país, promoveu o isolamento e a sobrevivência de comunidades que não viviam segundo os padrões da sua época.

Vale Glaciar do Zêzere, onde, no cima das montanhas, nasce o rio que desagua em Constância Foto: mediotejo.net

A história da Humanidade fez-se junto a cursos de água doce, sendo a água um elemento simbólico de peso na maioria das religiões. Em Fátima, após as aparições de 1917, um dos primeiros produtos a ser vendidos aos peregrinos foi água, dado a aridez da Cova da Iria. Posteriormente procurou-se água no subsolo, tendo sido construída uma fonte que ali permanece. No limite do Médio Tejo, Fátima vive de costas para a sua região, mas tal não implica que não tenha uma narrativa partilhada com ela.

Com um registo de mais de 9 milhões de visitantes em 2017, o Santuário de Fátima afirma-se no Médio Tejo e na zona Centro como local turístico por excelência e uma das bandeiras de promoção do país a nível internacional. Mas o fluxo turístico que por ali passa pouco impacto parece ter muito além da hotelaria e do comércio local, permitindo em grande medida apenas o desenvolvimento da própria cidade. Na sua região, uma questão frequente é de como atrair alguns milhares desses milhões de visitantes a outros espaços dignos de visitação.

Em redor de Fátima não faltam Castelos, mas não existe um denominador comum em torno da temática espiritual, que é, afinal, o âmago do interesse despertado pela cidade. A única ligação espiritual de Fátima a Ourém, para além da lógica concelhia, é a personagem de D.Nuno Álvares Pereira, Santo Condestável que foi Conde de Ourém. A rota faz-se assim para Oeste, procurando-se os locais da tradição marcadamente portuguesa: os grandes mosteiros, antigos santuários e o mar.

A aposta no turismo de herança judaica tem assim a particularidade de abrir espaço à descoberta do interior. Tomar, uma das paragens nas rotas tradicionais de quem visita Fátima, para além da promoção do seu Convento de Cristo (o espaço tem servido de cenário a vários filmes internacionais, como “O Homem que Matou D. Quixote” ou “Fátima”, tem investido na divulgação da sua sinagoga, a mais antiga do país e uma das mais antigas da Europa.

John Tong (centro), bispo emérito de Hong Kong, presidiu às celebrações do 13 de maio de 2018, no âmbito de uma aposta do Santuário de Fátima em ir ao encontro do crescente número de peregrinos asiáticos Foto: mediotejo.net

Depois de uma requalificação de 250 mil euros, a Sinagoga de Tomar reabriu ao público dia 9 de novembro de cara lavada, estando o seu espólio menos visível e mais vocacionada para a prática do culto judaico. Calcula-se que a população judaica de Tomar tenha atingido os 30 a 40% dos habitantes no século XV, fruto da fuga de judeus espanhóis para Portugal em 1492 face à perseguição dos Reis Católicos de Espanha e antes das conversões forçadas à cristandade dos séculos que se seguiram.

A comunidade judaica de Tomar remonta provavelmente ao início do século XIV, quando aqui se instalou uma comunidade ao serviço da Ordem do Templo e, mais tarde, da sua sucessora, a Ordem de Cristo. O rápido crescimento demográfico, ao longo do século XV, suscitou a criação de uma judiaria, com o encerramento de portas entre o pôr e o nascer do sol.

Estas portas situar-se-iam nas extremidades ocidental e oriental desta rua, que passou a ser designada de Rua da Judiaria, mais especificamente nos cruzamentos com as Ruas do Moinho e Direita. A situação da judiaria, próxima do centro económico e social da então vila, é bem demonstrativa da importância que a comunidade assumiu na sociedade nabantina.

Foi neste contexto que se deu a fundação da sinagoga, em meados do século XV, motivada pelo crescente número de fiéis. A construção deu-se por ordem do Infante D. Henrique, que ao que tudo indica protegia a comunidade hebraica da vila, facto a que não é alheio o cargo que exercia, de mestre da Ordem de Cristo. No entanto, a existência deste templo seria efémera, pois logo em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, a judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, é abolida, sendo também encerrada a sua sinagoga.

O espaço da sinagoga passou então, a partir de 1516, a ser utilizado como cadeia pública. Entre os finais do século XVI e os inícios do XVII, depois das necessárias obras, o edifício passou a local de culto cristão, como Ermida de São Bartolomeu.

Após a sua profanação, no século XIX, o antigo templo foi utilizado como palheiro, servindo em 1920, aquando da visita de um grupo de arqueólogos portugueses, de adega e de armazém de mercearia. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional, tendo sido adquirido em 1923 por Samuel Schwarz.

Samuel Schwarz (esq.) foi o responsável pelo resgate do património judaico de Tomar e Belmonte e o grande investigador dos cristãos-novos portugueses. No Museu Judaico de Belmonte existe um espaço dedicado ao seu trabalho Foto: mediotejo.net

Este judeu polaco, investigador da cultura hebraica em Portugal, suportou obras de limpeza e desaterro, doando o edifício ao Estado em 1939, sob a condição de aqui ser instalado um museu luso-hebraico. Autor de “Os cristãos-novos em Portugal no século XX”, Samuel Schwartz deu a conhecer a existência das comunidades judaicas assimiladas e do seu património arquitetónico, existindo uma sala dedicada ao seu trabalho no Museu Judaico de Belmonte.

Já a comunidade judaica de Belmonte foi identificada por Samuel Schwatz logo após a sua chegada à região em 1917, tendo impulsionado o seu estudo sobre os cristãos-novos ou marranos portugueses (judeus convertidos à força para evitar a opressão). Considerada a “a terra portuguesa onde a presença dos judeus é mais forte” pelo Turismo de Portugal, Belmonte tem hoje na herança judaica um dos seus pontos fortes de atratividade, possuindo uma sinagoga própria, dedicada ao culto, desde 1996, construída após a oficialização da comunidade judaica em 1988. Os judeus possuem também o seu próprio cemitério.

Pelas ruas calcetadas do seu centro histórico de características medievais, os crucifixos não existem. As montras são preenchidas por menorás, os candelabros de sete braços típicos do judaismo, e as estrelas de David surgem a cada canto como emblemas de todo o tipo. Há um evento designado Mercado Kosher (comida confeccionada segundo as normas judaicas) e o azul de Israel predomina, sendo a cor do Museu Judaico.

A visita ao Museu é essencial neste percurso espiritual, na medida em que narra uma história de resistência, que é a do povo judeu, e a de um tipo específico de culto, o criptojudaismo, resumido a práticas muitos básicas de culto em que são as mulheres que dominam.

É neste espaço que se encontra em exposição a pedra com inscrições em hebreu (epígrafe votiva que data de 1297) que foi encontrada na vila e que esteve no centro de uma forte luta pela sua recuperação pelo município de Belmonte, depois de vários anos num Museu em Castelo Branco.

Pelas montras de Belmonte há menorás e estrelas de David. Foto: mediotejo.net

O museu conta ainda a história da cultura sefardita, ou seja, a dos judeus da Península Ibérica. Perseguidos pelo Estado e pela Igreja, obrigados à conversão, redescobertos no século XX nos tempos do antissemitismo, a herança judaica de Belmonte leva hoje a vila a intitular-se de “terra da tolerância”.

Seguindo o trilho do Zêzere desde Constância à Serra da Estrela, as rotas católicas e judaicas cruzam-se com facilidade. Em redor de Belmonte há outros pontos de paragem, como Manteigas ou Guarda, seguindo até Trancoso, para observar vestígios de património judaico. Acrescem as diversas igrejas e capelas medievais ou modernas de raiz católica, narrando o percurso artístico desde o grotesco e tosco ao esplendor do renascimento, na sobriedade própria à ruralidade. Por aqui passa ainda quem segue para Santiago de Compostela.

Os caminhos de contemplação 

Afirma quem sabe que nos caminhos de Fátima o que interessa é o destino e que nos caminhos de Santiago o importante é a viagem. Em comum possuem o objetivo de fazer longos percursos de caminhada, modalidade atualmente bastante em voga, não como turismo de natureza mas numa perspetiva de contemplação, de superação e de busca interior.

Igreja de Santiago e Panteão dos Cabrais é um dos pontos de paragem do caminho de Santiago de Portugal Nascente Foto: mediotejo.net

Fátima encontra-se neste momento no centro de uma reestruturação de caminhos de peregrinação, em torno da Associação Caminhos de Fátima, que engloba municípios, o Centro Nacional de Cultura e tem o apoio do Estado. Há ainda o forte trabalho de marcação levado a cabo pela Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima, que tem definidos vários caminhos e respetivos albergues e possui, neste momento, a melhor organização.

Os diferentes caminhos de Fátima cruzam-se frequentemente com os de Santiago, nomeadamente o Caminho do Norte, havendo marcações do Centro Nacional de Cultura e da Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima. Os trajetos vão ao encontro do Caminho Central dos caminhos portugueses de Santiago, que parte de Lisboa e faz um trajeto mais a sul, por Tomar, encontrando-se em Ansião.

O Caminho Central português é o mais percorrido no território nacional e a segunda rota mais utilizada na Europa. As setas amarelas podem ser encontradas ao longo dos cerca de 600 quilómetros que ligam a Sé de Lisboa à Catedral de Santiago – e entre eles estão os mais de 40 quilómetros localizados no Médio Tejo, nos concelhos de Vila Nova da Barquinha, Tomar e Ferreira do Zêzere.

Quem decide complementar a peregrinação jacobeia com uma passagem no Santuário de Fátima faz um desvio em Santarém, segue as setas azuis dos Caminhos de Fátima pelos concelhos de Alcanena e Ourém e regressa ao percurso original em Ansião.

Entre Fátima e Tomar há apenas um caminho de ligação marcado pela Associação dos Amigos dos Caminhos de Fátima. Mais a Este, em Nisa ou Vila Velha de Rodão, encontra-se a via Portugal Nascente dos Caminhos de Santiago, passando por aldeias históricas como Castelo Novo e Belmonte, até Trancoso, onde encontra o Caminho de Torres.

Uma maior aposta de Ferreira do Zêzere nos caminhos de Santiago, localidade sensivelmente a meio entre os dois pontos, já foi motivo de discussão em reunião de câmara. Segundo o vereador Hélio Antunes, está a ser criada até Areias uma variante do caminho central de Santiago, que deverá estar marcada até maio de 2019.

Nesta localidade deverá também nascer em breve, numa antiga escola primária, um albergue para peregrinos, sob impulso da Associação de Melhoramentos e Bem-Estar Social de Areias.

Este troço de Areias vai encontrar posteriormente a rota “Zêzere Sagrado”, um novo percurso pedestre em desenvolvimento financiado pelo Turismo de Portugal. A rota contempla uma ligação às aldeias de Dornes e Bêco, criando-se um circuito de contemplação e visitação das respetivas igrejas: Matriz de Areias e Matriz do Bêco, duas das mais emblemáticas da diocese de Coimbra, e o Santuário de Nossa Senhora do Pranto em Dornes, cuja torre sineira é uma herança da Ordem dos Templários, conhecida como Torre Pentagonal.

As Igrejas de Dornes, Bêco e Areias possuem um riquíssimo património religioso, mas foram fechadas devido aos roubos. Desde março que a Igreja de Nossa Senhora do Pranto (Dornes) é aberta ao público mediante a vigília da população local. Será um dos pontos de visitação da rota “Zêzere Sagrado” Foto: mediotejo.net
Castelo Novo é um dos pontos de paragem do Caminho de Santiago Portugal Nascente, que atravessa o Centro do país até Trancoso Foto: mediotejo.net

Para quem gosta de caminhar e vai movido pelo espírito de contemplação, seguir o trilho do rio Zêzere oferece desde os Caminhos do Santiago à Grande Rota do Zêzere, sem contar os inúmeros percursos pedestres em seu redor. Em Belmonte existe inclusive um museu dedicado ao rio, com as suas diferentes características ao longo dos seus 214 quilómetros e três barragens e uma explicação sobre a sua importância energética e agrícola na região.

Subindo à Serra da Estrela à procura da nascente, o ponto de início da Grande Rota (GR33), no Vale Glaciar – Covão d’Ametade, coloca-nos perante uma natureza luxuriante e de uma imponência de cortar a respiração. No silêncio dos picos de Portugal, pouco mais há a mostrar sobre a pequenez do homem.

Tendo como ponto de partida o rio Zêzere, encontram-se os caminhos de Fátima, de Santiago e um vasto leque de rotas pedestres que promovem a contemplação Foto: mediotejo.net

Dos grandes homens e outros profetas

Na senda do turismo religioso, também a Sertã reconheceu em janeiro de 2017 que a figura de D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), nascido em Cernache de Bonjardim, necessita de maior promoção, tendo-se celebrado este ano o centenário da sua beatificação com um vasto programa cultural.

O estratega militar, que esteve ligado à fundação da segunda Dinastia e à famosa vitória em Aljubarrota para no final da vida se tornar carmelita, conhecido como Santo Condestável, motivou o interesse de John Hafferd, fundador do Exército Azul e da Fundação Oureana, pelo concelho de Ourém e, em consequência, por Fátima, tendo-se tornado no primeiro grande promotor do Santuário pelo mundo.

Romaria de São Nuno no concelho da Sertã Foto: mediotejo.net
Estátua a Pedro Álvares Cabral em Belmonte Foto: mediotejo.net

No percurso para Aljubarrota desde Abrantes até ao campo de batalha, em São Jorge, D. Nuno atravessou também o Médio Tejo, existindo um pouco por toda a região lendas de paragens em capelas para rezar pela vitória contra os castelhanos. Uma delas, em Ourém, é a capela de São Sebastião, que ao fim de várias décadas de promessas parecer estar no caminho de uma possível promoção.

Nesta rota espiritual há ainda espaço para o nome de Pedro Álvares Cabral, nascido em Belmonte, vila na qual existe um Museu dos Descobrimentos, para além de um Castelo com uma remanescente janela manuelina e uma bandeira brasileira hasteada. De recordar que o turismo proveniente do Brasil é um dos que mais procura Fátima.

Turismo internacional voltado para a espiritualidade

Sem património edificado de características monumentais, o Interior oferece sobretudo a natureza e os vestígios de comunidades que se mantiveram em isolamento ou compunham a linha de defesa do reino, com os seus rios e montanhas a definirem as fronteiras geográficas e os seus templos dedicados aos santos apóstolos que fundaram a cristandade. Não sendo uma rota marcadamente católica, abre espaço à observação da espiritualidade do velho mundo num momento em que se vive um turismo de massas e cada vez mais apostado em trazer povos asiáticos, americanos ou do Médio Oriente até Fátima.

Disso deu conta a própria Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, no Workshop Internacional de Turismo Religioso do ano passado, abordando a integração do turismo judaico.

“Há uma grande curiosidade nomeadamente sobre este património religioso e é uma forma número um de diversificar a nossa oferta – grande parte desta oferta até se concentra no interior do país – e é uma forma de levar as pessoas a todo o país e também alargar a nossa atividade turística a todo o ano”, salientou a responsável.

Park Jong Sun esteve presente no V Workshop Internacional de Turismo Religioso, realizado em Fátima dias 9 e 10 de março e falou sobre o interesse dos sul coreanos em conhecer a localidade Foto: mediotejo.net

“Estamos a conseguir atingir mercados que não vinham para Fátima tradicionalmente e que são aqueles que também deixam muito valor. É sintomático que o ritmo de crescimento das receitas em Portugal em 2017 duplicou o ritmo de crescimento do número de hóspedes. Quer dizer que estamos a conseguir atingir mercados que gastam muito mais quando vêm a Portugal”, afirmou.

O mercado sul-coreano, americano, chinês e polaco são, segundo a Secretária de Estado, mercados que estão a “descobrir Fátima”. Deste modo, tem sido desenvolvido “um trabalho de estruturação de produto de turismo religioso em Portugal, não só Fátima”, como “os caminhos de Fátima, o caminho português de Santiago e também o turismo judaico”.

No mesmo Workshop, o mediotejo.net teve oportunidade de falar com agentes de turismo sul-coreanos, que destacaram o interesse pelo profetismo de Fátima ou, de forma geral, pela espiritualidade da velha Europa.

O Centro parece assim estar a viver um momento de revitalização da sua herança, mostrando que o Interior do país, e do Médio Tejo em particular, tem muito mais a oferecer. Tal aposta terá que se focar num turismo não tanto movido por dogmas, mas na necessidade humana de uma vivência espiritual ou transcendente que, de algum modo, sempre moveu a História.

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