À Descoberta | Castelo de Belver, na rota dos Cavaleiros Hospitalários

Castelo de Belver

No início do verão, sobre a região que escolhi para viver depois de deixar Lisboa, perguntaram-me: “Se pudesses escolher um só local para visitar, qual escolherias?”. Alguns minutos de reflexão e respondi: “O castelo de Belver”.

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Não é fácil eleger um único local numa região premiada com locais idílicos como a Albufeira de Castelo de Bode, monumentos estrondosos como o Convento de Cristo em Tomar ou antigas tabernas, remodeladas ou não, conhecidas pelos nativos como segredos com petiscos imperdíveis e baratos.

Apesar do infinitude de propostas, existem várias razões para fazer daquele monumento nacional no concelho de Gavião, um dos meus locais preferidos. Pela vista magnífica, pela história, pelo pasmo ao ver o rio Tejo do alto da janela da torre de menagem e porque ali sinto-me quase a tocar as nuvens.

Castelo de Belver

Quem vem conhecer a região do Médio Tejo e os seus vizinhos por certo não espera encontrar centros comerciais com marcas intercontinentais, restaurantes da moda, esplanadas cheias de estilo ou lojas trendy. Escolher esta região para visitar é fazer-se à estrada e vir à terra para descobrir o silêncio, as aldeias, a natureza, os sabores, os rios e os seus recantos e até os monumentos. Se o Algarve passa a mensagem de não ser só praia, o interior Centro de Portugal vai muito além da terra queimada e do isolamento.

Há uma sentinela onde acaba o Ribatejo e Beira Baixa e o Alentejo começa, do lado Norte do Tejo, no topo de uma montanha encantada, altiva ao casario, em forma de velho castelo medieval, digna de visita. Mais que não fosse, por ser o castelo de Belver o primeiro construído em Portugal pela Ordem dos Hospitalários.

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Castelo de Belver

A freguesia do concelho de Gavião é histórica, tem tudo para nos conquistar: gastronomia, restaurantes típicos, vinho, monumentos, museus e hotéis rurais com vista sobre o Tejo. No passeio não deixe de visitar o Museu do Sabão, o Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias e a Igreja Matriz. Caminhar até à Ermida da Nossa Senhora do Pilar, calcorrear o Caminho da Fonte Velha e visitar a Anta do Penedo Gordo.

A história de Belver está inegavelmente ligada à conquista do território, razão pela qual ali se construiu um castelo com torre de menagem. Na povoação, as casas de dois andares alinham-se pelas ruas num branco imaculado, ou não estivéssemos no Alentejo, sinuosas e inclinadas com calçadas seixosas, numa atmosfera medieval mourisca.

Castelo de Belver. Vista da Torre de menagem

Havia, em 1194, uma região entre o rio Zêzere e o rio Tejo, denominada Guidintesta, doada ao prior da Ordem por D. Sancho I, D. Afonso Pais, para ali se construir um castelo. Belver foi uma das principais praças fortes, durante o período da reconquista cristã. A sua localização estratégica prevenia novas incursões para norte, quando o Tejo era espaço de fronteira entre Cristãos e Muçulmanos.

Na construção do castelo foram usadas das mais inovadoras soluções da arquitetura militar da época. O que não é de estranhar face à experiência dos Hospitalários na arte da construção de castelos e fortificações, do Ocidente Europeu à Terra Santa. A segurança desta fortaleza leva D. Sancho I a destinar Belver como um dos locais para o deposito do tesouro real português.

Agora o tesouro não se contabiliza em moedas de ouro, já não temos por estas terras cenários de batalhas religiosas embora exista um pequeno purgatório de escadas infernais antes de chegar quase (literalmente) ao céu. Vale a pena o esforço porque o paraíso avista-se dali. Além disso, se a sede apertar, quase às portas do castelo encontramos um bebedouro com água fresca.

Centro Interpretativo no Castelo de Belver

Meditando sobre o passado enquanto se observa a envolvência do castelo numa abundância harmoniosa de cores, parece impossível que em 1751, tenha sido abandonado e depois seriamente danificado pelo terramoto de 1755. Graças a outros olhos com visão sobre a importância do passado, atualmente o castelo encontra-se em perfeito estado de conservação, tendo sido restaurado no início do século XX (anos 1940) e mais recentemente com vários restauros na torre de menagem, onde encontramos o Centro Interpretativo, que funciona de quarta a domingo das 10h30 às 13h00 e das 14h00 às 18h00.

Parece tosco e bruto, mas está carregado de conteúdo. Entre a história e a lenda o castelo de Belver é dado como local por onde terão passado a princesa santa Joana (irmã de D. João II) ou o poeta Luís de Camões, no seu exílio de 1546.

Capela de São Brás, Castelo de Belver

No interior do castelo, ergueu-se, já no século XVI, a capela de São Brás que ostenta um interessante retábulo/relicário. Ali era guardado um extraordinário conjunto de relíquias que se diz terem sido trazidas da Terra Santa pelos Cavaleiros Hospitalários. Todo o retábulo é composto por pequenas esculturas que têm um buraco no peito e a maioria não tem mãos, precisamente para guardarem o conjunto de relíquias que podem ser palhinhas da manjedoura do menino Jesus ou cabelos de Maria Madalena.

Belver, nome atribuído ao castelo e estendido depois à povoação a que dá origem, não pode deixar de ser relacionado com o célebre castelo de Belvoir, erguido pelos Hospitalários, a partir de 1168, no reino de Jerusalém.

Contudo, conta a lenda que houve naquele castelo uma bela princesa que, um dia, chegada à janela da torre de menagem e descobrindo o belo panorama, terá exclamado: “Oh, meu pai, que belo ver!”. Não tenho sangue azul, portanto não fui eu, mas poderia perfeitamente ter sido.

Centro Interpretativo no Castelo de Belver

1 COMENTÁRIO

  1. Eu sou daqui também, hoje vivo em França e foi com prazer qui leio o seu escrito sobre a minha terra!
    Vou continuar a ler as suas prosas sobre estas regiões conhecidas.

    Faço votos para que a inteligencia popular néao volte a incendiar mais.

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