À Descoberta | Afonso Reis Cabral é escritor e descobriu a pé os 738km da EN2

Afonso Reis Cabral, escritor, trineto de Eça Queiroz, fez-se À aventura e percorreu a pé os 738km da mítica EN2, de Chaves a Faro, concluindo na quarta-feira, dia 15, o périplo pela estrada que une o norte e o sul do país. Foto: ARC

Afonso Reis Cabral, escritor, trineto de Eça Queiroz, fez-se À aventura e percorreu a pé os 738km da mítica EN2, de Chaves a Faro, concluindo na quarta-feira, dia 15, o périplo pela estrada que une o norte e o sul do país, buscando um conjunto de experiências. Sem planeamento de viagem, Afonso Cabral pernoitou na casa das pessoas que vivem junto a esta estrada, de forma a conhecer as histórias e tradições daquela que é a maior estrada na Europa e uma das maiores do mundo. O relato da viagem foi feito diariamente na sua página do Facebook e damos aqui conta da sua passagem e das suas experiências por terras do Médio Tejo e Alentejo, da Sertã a Vila de Rei, passando por Sardoal, Abrantes, Bemposta e Ponte de Sor.

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Afonso Reis Cabral tem 29 anos, é escritor, foi vencedor do Prémio Leya em 2014 e concluiu esta quarta-feira com sucesso o percurso pela Estrada Nacional N2, a pé, vindo de Chaves para o mar de Faro, em 738,5km de uma longa caminhada solitária.

A Estrada Nacional 2 atravessa o país de norte a sul, sendo a terceira estrada mais extensa do mundo, a seguir à rota 66 dos Estados Unidos da América (EUA) e à rota 40 da Argentina.

Na sua entrada na região do Médio Tejo, no dia 3 de maio, o escritor Afonso Reis Cabral visitou a Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes, na Sertã. A visita aconteceu no final de mais uma etapa do desafio que o escritor, vencedor do Prémio Leya em 2014, abraçou de percorrer a pé a mítica EN2. Afonso Reis Cabral foi recebido pelo adjunto do presidente da Câmara Municipal da Sertã, António José Simões, com quem trocou algumas impressões sobre o espaço e também sobre a EN2. Afonso Reis Cabral cumprimentou ainda toda a equipa da biblioteca e autografou o seu livro “O Meu Irmão”.

Na noite de 3 de maio, o escritor pernoitou na Sertã, depois de uma viagem a pé durante o dia entre Pedrógão Grande e a Sertã. Foto: CMS

Ao longo da viagem, Afonso Reis Cabral manteve um diário de bordo na sua página de Facebook, onde deixou algumas impressões da viagem que o trouxe até à Sertã:

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“(…) Perto da Amieira, um homem aplanava a terra com um tractor, contornando as oliveiras com destreza. Ia pedir-lhe que me ensinasse a guiar o tractor quando ele saltou do banco e se pôs a cismar num dos pneus, que esguichava. Incapaz de o ajudar com o furo, disse-lhe “Ao menos não vai a pé para Faro, como eu”; e ele lá ficou, aliviado por só ter de mudar um pneu. Entretanto, eu e as minhas sapatilhas estamos tantas horas juntos, e elas servem-me tão bem, que à noite me apetece dar-lhes um beijo e levá-las comigo para a cama. A meio caminho entre Pedrógão e a Sertã, (…) depois de me sentar em cima de urtigas percebi que não empacotara comida suficiente. Tenho assim dois condões: a pontaria e a previdência. Sem cafés à vista, chamei uma senhora recolhida no seu quintal para lhe pedir indicações. E comida. Ela estranhou, disse que não tinha nada. Quando me viu prosseguir é que se decidiu. Não tinha nada mas deu-me tudo o que tinha: uma maçã e uma fatia de bolo do padeiro, como lhe chamou. Bastou-me para chegar ao café da Póvoa da Granja, onde me serviram um caldo verde da panela da família. “As autoridades só querem inox, multam tudo, não me deixam servir esta sopa”, disse-me a dona. E eu pensei que as autoridades nunca proibiriam aquela sopa se a comessem. Nas paredes havia fotos de cavalos com flores, de crianças com cavalos, calendários e o horário de atendimento da Dra. Cielos, que trata o mau-olhado às segundas. Antes da Sertã, aconselhado pelo caldo verde, deitei-me à sombra de um sobreiro e adormeci”.

No final da visita, ficou a promessa de Afonso Reis Cabral regressar em breve à Sertã para uma estadia mais demorada.

“Sertã-Vila de Rei: 25 km (só faltam 369)

Depois da Sertã, a Nacional 2 disfarça-se de via rápida, o que me deu muito jeito para chegar depressa a meio da viagem. Antes de as pessoas desaparecerem, pus-me a observar um homem que lançava esguichos de pesticida para a copa de cerejeiras. Matava formigas como quem cata piolhos à tesourada. A fonte da Junceira foi construída em 1966 só para mim. A torneira estava à altura ideal da minha nuca. Daí em diante, a estrada alarga, cava-se em V e mostra flancos de pedra, embalando o calor num colo fundo. Em criança, devo ter gostado de colo, mas não era bem como este. A estrada tornara-se líquida mas continuava sólida – as miragens juntavam-se aos reflexos brancos dos meus óculos escuros. A meio do dia, esquivei-me por um caminho de terra batida que levava à represa do Isna. E aí, ao tirar os óculos, descobri que os reflexos brancos eram brancos mas não eram reflexos. Milhares de flores de esteva tapavam as colinas. Durante quilómetros, enquanto a estrada sem sombras me destilava, só vi pinheiros, estevas e moscas. Algumas destas beberam na minha pele. Deixei-as estar – ao contrário de mim, podiam apanhar boleia. Nos arredores de Vila de Rei, encontrei por fim pessoas onde elas faziam mais sentido. De roda de uma fonte. Vê-las foi como beber água. Mas beber água foi melhor do que vê-las. Segui mais facilmente para o marco do quilómetro 369. Durante a noite decido se já cheguei a meio ou se ainda me falta metade.”

Afonso Reis Cabral em Vila de Rei, centro geodésico de Portugal. Foto: ARC

Diário do Caminho, por Afonso Reis Cabral ( escritor vencedor prémio Leya)

Dia 14 – ” Vila de Rei-Abrantes / Barreiras do Tejo: 35 km (só faltam 334)

Como tem ritmo a Bossa Nova! Alcei-a no começo da jornada e pesou-me menos do que a mochila velha, cuja armação empenei. Também gastei os sabres de luz até ao sabugo mas já lhes pus outros calços. Falta-me substituir os pés para completar a revisão. Na hora do lobo (como ouvi Mário Cláudio chamar aos momentos em que a noite pesa), estive prestes a decidir que ainda me faltava metade. Depois adormeci e felizmente de manhã já tinha chegado a meio. Segui a assobiar pela estrada velha que converge com a variante larga no Sardoal. Descrente de que valesse o esforço, desci à praia do Penedo Furado pelo trilho íngreme da encosta. Caminhei descalço pela margem fria até os pés ficarem dormentes. Ocorrera-me que passear assim era como dar a mão a uma namorada, quando uma cobra se juntou a mim. Apanhei-a para observar melhor o brilho dos olhos e das escamas. Ela enrolou-se-me nos dedos protestando com a língua. Eu não a entendi mas ela disse “Liberta-me”. Na direção de Andreus, a estrada é uma tira de alcatrão esquecida de pessoas e de carros. Pus o Requiem de Mozart alto para não ser apenas eu a ouvi-lo mas os pinheiros e os fetos mantiveram-se indiferentes. Só se comovem com o vento. A determinado ponto, encontrei um tijolo pousado num pilarete. Nele alguém escrevera NÃO MEXER. Tamanha proibição, na Nacional 2 onde até o Requiem é permitido, foi tão inesperada e injustificada que eu só podia ter chegado a uma qualquer Árvore da Ciência do Bem e do Mal. Pouco antes, até conversara com uma cobra. Quase obedeci – preferia não descobrir que estava nu -, mas naquele isolamento dispensava bem a roupa. Agora o tijolo diz ꓤƎXƎW OⱯN porque o virei ao contrário. Talvez daqui para a frente tenha de caminhar rumo a leste em vez de para sul. Por enquanto, consegui chegar ao Tejo.

PS – Obrigado ao Bruno Marques Centeio pelo bolo, ao Joaquim Melo dos Santos pela boleia depois da jornada, ao Alberto Lopes pelo excelente alojamento e apoio, e ao Luís Dias pela ajuda de amanhã. ”

Afonso Reis Cabral na sua passagem pela ponte sobre o Tejo, em Abrantes. Foto: ARC

Diário do Caminho, por Afonso Reis Cabral ( escritor vencedor prémio Leya)

Dia 15 – ” Abrantes-Ponte de Sor: 32 km (só faltam 302)

Duas semanas na bela violência do asfalto. Ontem, no fim da caminhada, uma menina de nove anos descreveu o inglês como português mal falado. Pedi-lhe para um dia usar a expressão num livro e ela concordou. Quer dizer que o asfalto já me deu uma frase para o próximo romance, embora não seja minha. Antes da Bemposta, à distância, vi pessoas dançar sobre renques de terra lavrada. Levantavam-se e baixavam-se numa coreografia sem música. Meti-me pelo campo depois de lhes berrar “Posso ir aí?”. Eram mulheres que plantavam pimentos. Quando lhes disse que ao longe pareciam dançar, riram-se, esquecidas dos rebentos e das costas dobradas – eu esquecido dos músculos dos pés. Por momentos foi fácil trocarmos de dores. Os renques plantados e os renques por plantar lembravam o caminho feito e o caminho por fazer, mas o delas é muito mais duro: à volta, vários hectares mostravam milhares de cabecinhas de pimentos. Despedimo-nos quando a sirene de uma fábrica deu o meio-dia. Na Bemposta, uma senhora chamada Anita esperava-me com garrafas de água e com um bilhete onde escrevera, dirigindo-se à dona de um restaurante, “serve o almoço a este senhor que eu pago”. Vou levá-lo sempre comigo por me saber a abraço, e só não chorei porque nos homens tal é fisicamente impossível. O Alentejo tem sido útil porque agora prescindo de naufragar. Já sei como os náufragos lidam com o horizonte: quanto mais avanço, mais as rectas recuam. Encontro muitas pessoas nas rectas, mas para meu azar vão em carros, motas e camiões. E também devem achar as rectas perpétuas, uma vez que aceleram como nas auto-estradas. Quando os camiões passam rumo às corticeiras, fica o cheiro a madeira, fresco como o de uma laranja acabada de descascar. Antes de Ponte de Sor, quilómetros à frente, vi uma enxurrada de ovelhas a atravessar a estrada. À falta de lobos, o pastor protegia-as dos carros.”

Afonso Reis Cabral percorreu a pé a mítica EN2. Foto: ARC

Afonso Reis Cabral, nasceu em 1990. Aos quinze anos publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos treze anos.

Ganhou o prémio LeYa em 2014 com o romance O Meu Irmão, que se encontra em tradução em Espanha e em Itália e já foi publicado no Brasil. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, e em 2018 o Prémio Novos na categoria de Literatura.

No final de 2018, publicou o seu segundo romance, Pão de Açúcar com forte acolhimento por parte da crítica. Trabalha actualmente como editor freelancer. Nos tempos livres, dedica-se à ornitologia, faz Scuba Diving e pratica boxe.

A Estrada Nacional 2 liga Chaves a Faro numa distância de 738 quilómetros, atravessando territórios tão diferenciados como as vinhas do Douro, a zona do Pinhal e o Centro Geodésico de Portugal (em Vila de Rei, na região do Médio Tejo), as planícies alentejanas ou as praias algarvias.

 

 

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