“A conta é o menos”, por Berta Silva Lopes

Foto: Cal Engel / Unsplash

Voltem amanhã, hoje já não há pêxe. Ora aí está o recado, pronunciado assim mesmo, à boa maneira algarvia, que delícia, o peixe e o sotaque, todos eles, não apenas o sulista. Voltamos sim senhor, este ano não saímos do Algarve sem cá voltar, está feita a promessa!

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Voltem amanhã, mas mais cedo, às oito ou às sete e meia, ou até antes – preveniu-nos o empregado. Estamos em Santa Margarida, às portas de Tavira, um lugar com meia dúzia de casas e um restaurante famoso, sobretudo pelo peixe à discrição.

Naquela noite, porém, acabámos, e bem, jantar em Santa Luzia, capital do polvo. Já do serviço não podemos dizer o mesmo: lento e pouco profissional, e, no final, um erro na conta. Acontece; e, verdade seja dita, só demos com o engano depois de pagar. Não sendo quantia de grande monta, vá lá, serviu de alerta.

No dia seguinte, noutro restaurante, o atendimento foi melhor, mas houve direito a mais uma (tentativa de) cobrança indevida. Môce, mas que jêtes? É verdade, é o que dá olhar para as faturas com atenção. Tire lá o valor dos gelados da conta, sff.

Viajar é um dos grandes prazeres da vida, e a mesa o sítio perfeito para celebrar as coisas boas de ambos. No fundo, a conta é o menos, diga-se, o mais importante são os momentos de partilha, descoberta e deleite. E o que se aprende em todos eles – como cálculo mental, por exemplo.

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Estas férias atafulhámo-nos de coisas boas. Sopa de beldroegas e pregados escalados na costa alentejana, ensopado de borrego e arroz de lebre na zona raiana, cabrito e chanfana nas aldeias de xisto e, claro, muita salada algarvia.

Não fomos servidos da mesma maneira em cada um dos restaurantes onde estivemos, mas em todos eles encontrámos a identidade e a herança cultural daqueles sítios e das suas gentes. No prato e na conversa, a alma inteira naquilo que melhor sabemos fazer: bem receber. Tenho cá para mim que somos os melhores anfitriões do mundo.

As minhas filhas, sempre cheias de esquisitices à mesa, renderam-se finalmente aos sabores deste país. Come-se maravilhosamente bem em Portugal, de norte a sul, é um facto. Enguias fritas, cabidela, tibornadas, foi um regalo vê-las experimentar, gostar, pedir mais.

Também tiveram algumas lições de economia doméstica, geografia e história, estudo do meio e gastronomia. Hoje já sabem que as alheiras são transmontanas, as migas alentejanas, a muxama algarvia. Chegará também o dia em que descobrirão que a poncha é da Madeira e o vinho do Dão. Por enquanto basta-me que saibam apreciar os momentos simples da vida, numa tasca ou num restaurante premiado, e, sobretudo, que encontrem sempre motivos para celebrar.

Por mais voltas que a vida dê, quero que saibam que há sempre uma nova viagem para planear e mil maneiras de viajar. Qualquer que seja o destino, Portugal adentro ou por esse mundo fora, nenhuma viagem nos torna mais pobres. É como diz o escritor e viajante Gonçalo Cadilhe: não importa a viagem, mas sim o que ela faz de ti. No regresso, qualquer que seja o valor da fatura, estamos sempre mais ricos. A (outra) conta é (mesmo) o menos.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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