“A ação laicizadora republicana: Festas cívicas em Abrantes”, por José Martinho Gaspar

Praça Barão da Batalha, em Abrantes. Foto: DR

Oliveira Marques, profundo conhecedor do fenómeno que foi a I República, escreveu que “A Lei da Separação do Estado das Igrejas foi decretada em 20 de abril de 1911, com influências da legislação estrangeira – nomeadamente brasileira e francesa –, mas representando sobretudo um esforço notável de adaptação ao fenómeno português.

Começava por reconhecer e garantir a plena liberdade de consciência a todos os cidadãos portugueses e estrangeiros residentes em Portugal (art. 1.°), declarando em seguida que a religião católica deixava de ser a religião do Estado e que todas as igrejas ou confissões religiosas eram igualmente autorizadas (art. 2.°). Sendo assim, o Estado deixava de subsidiar o culto católico, extinguia as côngruas impostas aos cidadãos, considerava livre o culto de qualquer religião […]”.

Em Abrantes, cuja militância republicana é sobejamente conhecida, em especial no espaço urbano e na zona sul do concelho, ocorreram múltiplas reações desfavoráveis à Lei de Separação das Igrejas do Estado. Alguns episódios conhecidos revelaram-se no mínimo caricatos, por exemplo quando no Pego e em Tramagal a população decidiu pegar nos santos ao colo face à proibição de realização do culto externo (procissões).

Em todo o processo de laicização da sociedade encetado pelos republicanos, desempenharam lugar de destaque as festas cívicas. Pretendia-se com as mesmas fomentar e propagandear sentimentos coletivos em torno dos novos símbolos propostos pela República. O espaço público, cada vez mais alheio às celebrações religiosas, tornou-se lugar privilegiado para o espetáculo político.

No concelho de Abrantes, desde cedo este tipo de festividades ganhou preponderância. O seu caráter regenerador está bem patente na publicitação feita no Jornal de Abrantes: “Mais uma noite de alegria vai proporcionar-nos a comissão promotora das festas cívicas nesta Vila, que com tão decidida boa vontade e superior êxito tem vindo a iniciar o combate à rotina dos velhos arraiais (da murraça e da pancadaria) […]”. Nos períodos mais quentes dos anos subsequentes a 1910, raro terá sido o fim-de-semana em que não se levou a efeito uma festa cívica, as quais decorriam tanto na sede do concelho como em localidades próximas, tais como Rossio, S. Miguel, Alferrarede, Pego e Alvega.

"A ação laicizadora republicana: Festas cívicas em Abrantes", por José Martinho Gaspar

Deparamos, no âmbito das festas cívicas, com a realização frequente de um tipo muito específico – as festas da árvore. “Plantar uma árvore, é mostrar bondade. Ela representa a ventura e a alegria”, afirmava-se na imprensa local. O culto da árvore, em que crianças das escolas procediam à sua plantação, funcionava com um intuito educativo de formar novos republicanos, possuidores das virtudes desejadas pelo novo regime, mais próximos da natureza e afastados da religião.

Outro aspeto digno de realce, assumido pelas festas cívicas, é o facto de o seu saldo ser normalmente aplicado no auxílio dos mais desfavorecidos, ao contrário da maioria das festas religiosas, cujos lucros revertiam normalmente para a manutenção dos edifícios ou do próprio culto. Esta aposta na solidariedade e na beneficência, que foi uma das imagens de marca da I República, terá sido um dos fatores geradores de maior simpatia em torno dos festejos cívicos.

Para além do culto ao hino nacional e à nova bandeira, normalmente presentes nestas festividades, um outro elemento com que deparamos com bastante frequência é a realização de bodos, tanto a favor de pobres como de crianças. Ora, as crianças, tanto na escola como na festa, eram um alvo predileto dos republicanos, que lhes pretendiam incutir os valores da Pátria e da República.

Apesar da vertente laicizante das festividades cívicas, pudemos encontrar situações em que estas terão convivido com celebrações religiosas, como aconteceu no Pego, em setembro de 1916, nas Festas de Nossa Senhora do Rosário, quando se criou uma comissão para promover festividades cívicas, para que assim os festejos assumissem maior brilho.

"A ação laicizadora republicana: Festas cívicas em Abrantes", por José Martinho Gaspar
Jardim da República, em Abrantes. Foto: DR

Fica a prova de que parte da população não oporia República a religião, ou festejos cívicos a festas religiosas. É também certo que, em especial a partir de 1916/17, com o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial, a influência do catolicismo junto das populações voltou a crescer, sobretudo devido à sua ação assistencialista.

 

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