“40 minutos em modo rápido”, por Berta Silva Lopes

Foto: Pixabay

Toca o despertador. Acordam os pais, acorda a miúda mais velha e logo a seguir a mais nova. Perguntam as duas se é dia de escola, e é. A mais velha queixa-se, a caçula refila, quer ir passear, e pouco depois aparece de galochas na mão. O pai manda-a arrumar as botas, o inverno já acabou, mas ela insiste.

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– É a mãe que me veste, choraminga. O pai diz que não, ela diz que sim, ele que não, ela que sim, não, sim, não, sim. O pai desiste. A mais velha reclama do quarto que vai trocar as calças, hoje é dia de ginástica, avisa que prefere as sapatilhas brancas, e que à tarde tem sempre calor e por isso também quer uma t-shirt. A mais nova de galochas.

– Alguém viu a minha escova? pergunta. Como ninguém responde ela volta a perguntar, desta vez aos gritos. O pai manda-a parar de gritar, ela responde que quem está a gritar é ele.

A mais nova já não chora, mas não quer o vestido amarelo, manda o pai procurar o tutu cinzento e a camisola com brilhantes. O pai cobre-se de suor perante a ideia de ter de encontrar alguma coisa no roupeiro das miúdas. E inventa: o tutu e a camisola com brilhantes estão para lavar. A mais nova recomeça a chorar. O pai tenta despir-lhe o pijama, vestir pernas e braços nos sítios certos. Finalmente está pronta. Na cozinha, por fim, a mais nova, afinal, não quer leite, quer torradas, e a mais velha (diz que tinha pedido cereais, mas ninguém a ouviu) recusa-se a comer o que tem à frente.

– Só como a ver bonecos, diz a mais nova.

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– E eu se me deixares ver o tablet, chantageia a outra.

A primeira reclama que assim não ouve os bonecos. A mais velha pergunta se pode levantar-se para ir buscar os phones. A mãe desliga a televisão e o tablet, e ameaça que vão as duas para a escola sem comer. És má, atira a mais velha à mais nova, que, entretanto, já quer o leite, não quer é aquela palhinha, quer uma cor de rosa. És bebé, provoca a mais velha, a pequena responde: ai não sou não, os bebés bebem pelo biberão.

A mãe manda-as lavar os dentes. Mãe! mãe! mãe! – grita a mais nova (que não chega à torneira). O pai manda a mais velha ajudá-la, mas ela lembrou-se que quer ver AGORA o que leva na mochila para o lanche. O pai exalta-se, pergunta-lhe se ela sabe que horas são. A mais velha vai à cozinha ver as horas enquanto a mais nova se enfia no quarto a escolher um brinquedo para levar para a escola. Ainda falta o kimono, hoje é dia de karaté na escola da mais velha, e as meias antiderrapantes das aulas de yoga da mais nova.

Vá, meninas, ‘chamem’ o elevador. A mais nova choraminga, a mais velha ri-se, chegou primeiro ao botão. Na rua, a pequena tem calor, afinal já não quer as galochas. O pai volta atrás. A mãe e elas, mais as mochilas, os brinquedos, os sacos e os casacos seguem para o carro. Senta uma, senta a outra. O pai está de volta, traz nas mãos os sapatos preferidos da mais nova.

– Mas ó pai, falta a bandolete!, diz ela.

Ser mãe (e pai) todos os dias é uma grande canseira. Porventura a melhor de todas.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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